12 julho 2016

Obediência na Igreja como condição para a comunhão e a unidade


Senhor, quem morará em vossa casa e no vosso monte santo habitará?

Homilia 29.08.2015 - Pe. Luís Fernando
Caríssimos irmãos e irmãs, a liturgia de hoje (30 de agosto de 2015) possui um cunho moral muito forte. Ela traz um ensino fundamental para quem é católico. Nós católicos não vivemos dos cinco solas de Martinho Lutero: Sola fide, sola scriptura, solus Christus, sola gratia, soli Deo gloria. Nós somos ensinados pela Igreja que é Mãe e Mestra e a ela somos obedientes. Sua doutrina não provém da interpretação pessoal da sagrada escritura, não provém somente da Palavra de Deus, mas, é igualmente interpretada e ensinada pelo Magistério da Igreja e pela sua Tradição desde os tempos apostólicos até hoje. Estas novidades de Martinho Lutero e os reformadores no século XVI foram uma inovação na doutrina perene da Igreja, um acesso de soberba dos reformadores que queriam separar-se da Santa Igreja de Deus e utilizaram a declaração de sua doutrina como um ato formal de desobediência e rebeldia para conseguir isso.
A rebeldia e a desobediência são, de fato, duas ações do espírito humano geradas dentro do coração humano. No Evangelho, Jesus está às voltas com os fariseus que o interrogam sobre o fato dos seus apóstolos e discípulos não seguirem à risca as leis judaicas, ao que Jesus responde: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios... O coração na nossa cultura é um sinônimo para a consciência. É dentro do homem e de sua consciência, no seu interior, que é gerado o pecado. E é igualmente na sua consciência que ressoa a voz de Deus. Na carta de São Tiago que lemos na segunda leitura, nós vamos encontrar o seguinte ensino do Apóstolo: Havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte (Tg 1,15). A bíblia enfatiza muitas vezes a necessidade da pureza de coração (cf. Mt 5,8), da retidão das emoções, dos pensamentos, da pureza dos desejos, da retidão das intenções e motivações internas do homem. Do mesmo modo que tudo isso pode ser direcionado ao bem, pode também ser direcionado ao mal. Assim, a rebeldia e a desobediência em geral são concebidas e geradas por um coração soberbo que precisa aprender a humildade dos santos. Santa Terezinha do Menino Jesus limpava o Carmelo tendo contraído uma grave enfermidade. Então uma de suas irmãs lhe diz para deixar aquilo e ir repousar ao que ela responde: como poderei um dia comparecer diante do rei se lhe negar este mínimo dever? Sua consciência era tão humilde e voltada para Deus que desobedecer sua Madre lhe parecia sempre um pecado imperdoável. Ela não olhou sua enfermidade, não olhou para si mesma, para sua vontade ou para sua necessidade, para seu querer, pois, seu único querer era fazer em tudo a vontade de Deus expressa nas palavras de sua Madre. A humildade de fato tem sua raiz em Deus, porque quando os nossos olhos estão voltados para Deus, eles não se voltam para nós. A soberba, a rebeldia e a desobediência acontecem em nós e são geradas no nosso coração quando nossos olhos se distraem com as coisas do mundo e se perdem das coisas do alto.
São Tiago na leitura de hoje nos diz expressamente: Recebei com humildade a Palavra que em vós foi implantada, e que é capaz de salvar as vossas almas. Todavia, sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Em primeiro plano este trecho liga-se ao seguinte e nos manda praticar a palavra de Deus amando o próximo, sobretudo o pobre, o indefeso, o órfão e a viúva na linguagem bíblica. Mas, não é só assim que se vive a Palavra de Deus. Vivemo-la sobretudo na obediência aos nossos superiores. Os filhos devem obedecer aos Pais porque essa é a vontade de Deus a nosso respeito. Devem obedecer seus professores, porque eles estão a seu serviço para lhe ensinar as ciências humanas. Todos nós devemos obediência às autoridades civis legitimamente constituídas porque isso é bom e agradável a Deus. Todo o povo de Deus deve obediência ao Santo Padre, sobretudo quando ele ensina a Igreja em matéria de fé e de moral. Do mesmo modo, os fiéis de uma Paróquia devem obediência a seu Pároco e todos os fiéis de uma Diocese devem obediência a seu Bispo. Tudo o que nós cremos acerca de Deus foi em nós implantado, como disse São Tiago, pela Palavra ensinada pela Igreja. Ninguém deu a si mesmo o dom da fé que é, sempre, a fé da Igreja. Ela é a porta-voz de Deus para o homem. Desobedecer a esta Igreja é desobedecer a Cristo. Romper a unidade e a comunhão com esta Igreja é romper com o Cristo. “Ouve Israel, as palavras que eu vos digo...”, ouvimos na primeira leitura e agora retomo: Ouvi povo de Deus a voz do seu pastor que não ensina as coisas de seu próprio pensamento, mas, que ouve a Igreja e a ela obedece. Ouve as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir para que, fazendo-o, vivais. Há uma graça na obediência. Quem obedece não erra. Quem possui o poder de governar e de obrigar na Igreja, também possui o carisma e o dom para o governo dado por Deus porque todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes.
Nós não somos protestantes luteranos, calvinistas, metodistas, presbiterianos; evangélicos, pentecostais ou neopentecostais para fazermos uma Igreja segundo o nosso pensamento e a nossa vontade. Somos Católicos e vivemos debaixo da obediência à autoridade da Igreja. Se nos custa obedecer, ofereçamos a cruz e a dor da obediência ao Senhor pelos nossos pecados. Afinal, não estamos tão santos assim que possamos desprezar uma dor e jogar fora os frutos que dela poderemos colher. Basta olharmos o exemplo que a história nos deixa. Santa Terezinha obedeceu até o fim, como Jesus, e hoje é santa. São João da Cruz foi jogado no cárcere por seus próprios irmãos de convento, obedeceu até no cárcere, e lá teve seus maiores êxtases místicos escrevendo os mais belos poemas do ocidente em honra do Senhor e hoje é santo. São Francisco de Assis, pobre e humilde, de joelhos diante do Papa Inocêncio III obedeceu à sua autoridade e sua obediência rendeu à sua ordem religiosa inumeráveis santos e santas de primeira estirpe. Chiara Lubich, fundadora do movimento dos Focolares, obedeceu em tudo ao Papa Paulo VI na década de 60 quando o movimento estava sob investigação da Igreja. Afirmou ela que se o Papa mandasse com que encerrassem suas atividades, ela voltaria ao seu focolare, comunicaria a decisão do Santo Padre às suas companheiras, tomaria suas coisas e não pensaria duas vezes em obedecê-lo. Morreu com fama de santidade. Os que desobedeceram e não quiseram corrigir seus erros causaram na Igreja enormes feridas na unidade. Assim foi com Lutero, com os reformadores, que desprezaram os sucessivos pedidos dos Papas para se retratarem. Seu pecado foi tão nefasto que se tornou uma hidra. A cada seita neopentecostal que se fecha, duas outras se abrem atestando a rebeldia e desobediência de seus pais na fé.
Conclusão

Na Igreja existe um testemunho de unidade e comunhão do qual depende a veracidade do nosso anúncio que cumpre  pedido de Jesus em Jo 17,21. O evangelho que anunciamos não pode ser contraditório. Esta comunhão e unidade não dependem do sentir, do gosto ou do achismo pessoal. São realizadas na fé. No entanto, há outras virtudes que ajudam a realizar de modo eficaz a unidade e a comunhão na Igreja. Os conselhos evangélicos da pobreza, da obediência e da castidade são estas virtudes. O conselho evangélico da pobreza nos ajuda a viver a unidade quando entendemos que os bens da unidade e da comunhão são mais preciosos e precisam ser resguardados mesmo quando precisamos perder a nossa vontade, o nosso pensamento, a nossa ideia, porque para Jesus no reino de Deus só ganha quem perde. O conselho evangélico da castidade nos ajuda a manter a comunhão e a unidade porque nos educa para o autodomínio. Quem não domina os próprios impulsos interiores também não consegue refrear as próprias tendências interiores, as próprias vontades. Tais pessoas são dominadas por seus impulsos e por suas vontades. Por isso, a castidade nos educa para o domínio de si, das próprias vontades, dos impulsos e dos desejos afim de direcioná-los para Deus. Assim, a virtude da castidade nos ensina que para manter a comunhão e a unidade é preciso dominar-se a si mesmo, dominar os próprios impulsos e as próprias vontades. A obediência na Igreja, por sua vez, não se dá por simpatia, empatia, ou para sentir coisas boas. A obediência é fruto da fé e só tem razão de ser pela fé. Por isso, ela precisa da virtude da pobreza e da castidade, pois, a quem se obedece em primeiro lugar é a Deus e em segundo lugar à sua Igreja. Só quem é pobre de coração e casto nas suas vontades pode obedecer e assim, construir comunhão e unidade. Tais virtudes são sobrenaturais, são fruto da fé, por isso, a própria unidade e comunhão da Igreja são fruto da fé. Sem comunhão e sem unidade não há verdadeiro testemunho do evangelho, mas, há o contratestemunho que faz com que o mundo descreia da boa nova de Jesus.

De: padreluisfernando.com

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