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09 março 2021

Por que deve-se pedir a intercessão dos santos? - Por @Katholikos2




Segundo o Compêndio do CIC, a intercessão "consiste no pedir em favor de outro. Ela conforma-nos e une-nos à oração de Jesus que intercede junto de Deus Pai por todos os homens, em especial pelos pecadores. A intercessão deve estender-se também aos inimigos" (n. 554).

No Reino de Deus, os Santos estão na mesma condição dos Anjos, pois conservam as suas naturezas individuais e intelectuais, e possuem a mesma Luz divina na qual vêem a Deus, e em Deus e tudo que a sua mente pode conhecer. “Na tua Luz veremos a Luz” (Cf. Salmos 35 [36],10).

É por essa razão que a Sagrada Escritura nos revela: "Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas?" (Cf. 1Cor 6,2)

Os católicos distinguem claramente entre culto de adoração, que devemos somente a Deus, nosso Criador e Redentor; e veneração, - que implica apenas: respeito, admiração, imitação, amor, etc., como se costuma demonstrar aos heróis da Igreja. Nada mais humano e também bíblico!

• Objeção: "Há um só Mediador..." RESPOSTA: O Apóstolo Paulo, na mesma carta em que declara Jesus como único mediador entre Deus e homens, indica também mediadores “secundários” (I Tm 2,1-5).

É por isso que a oração litúrgica termina: “por nosso Senhor Jesus Cristo...” Esta verdade herdamos dos primeiros cristãos. Antes de serem escritos os Evangelhos, eles aprenderam no “Símbolo Apostólico” (ou Credo dos Apóstolos) “Creio na Comunhão dos Santos”.

Podemos notar que quando na parte final de 1 Tm 2, 5 se diz " Cristo Jesus homem". Nota-se a intenção de São Paulo por demonstrar que é como homem que Jesus é capaz de ser o reconciliador e mediador para o homem.

Por acaso Efésios 2,20 se opõe a 1Coríntios 3,11 se tomarmos os santos apóstolos como fundamento? A resposta, segundo a doutrina católica é: “não”! Cristo é o fundamento; e os apóstolos e profetas participam desse ofício de Jesus de ser fundamento.

"[...] assim também em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros" (Rm 12,5). A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e a fonte de todos os elementos de santificação. Os Santos e Anjos pertencem à Igreja Triunfante.


De acordo com Leon-Dufour: Que Cristo seja o único mediador não significa que tenha terminado o papel dos homens na história da salvação. A mediação de Jesus reveste sinais sensíveis:
São os homens, a quem Jesus confia uma função para com sua Igreja; inclusive na vida eterna associa Jesus Cristo, em certa maneira, a sua mediação os membros de seu corpo que entraram na glória.

Uma vez no céu, as almas do santos fazem parte da Igreja Triunfante, onde louvam a Deus eternamente [Apocalipse: 7,13-16]. Todos no céu são obedientes à Deus e portanto, compartilham do Seu desejo sublime, que é a Salvação de todos os homens.

"E, havendo tomado o livro, os quatro animais e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo todos eles harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos" (Apocalipse 5,8).

A ideia do Arcanjo Miguel como um advogado de defesa dos judeus, por exemplo, se tornou tão prevalente que, a despeito da proibição rabínica contra se apelar aos anjos como intermediários entre Deus e seu povo, Miguel acabou tomando um lugar importante na liturgia judaica.

São Miguel Arcanjo é mencionado três vezes no Livro de Daniel, uma como um "grande príncipe que defende as crianças do seu povo". Reconhecê-lo como um instrumento do plano salvífico do Senhor seria idolatria?

Sobre o "sono dos mortos", A doutrina da Igreja é clara: aqueles que já estão purificados de seus pecados, imediatamente após a morte, mesmo antes do Juízo Final, estarão no paraíso, que é estar com Cristo.

1) Quem morre na graça de Cristo, e que está totalmente purificado, entra imediatamente no Paraíso. Vejamos Lucas 23,42-43;
2) Quem está nos céus pede por nós. Vejamos Apocalipse 6,9-11;
3) Apocalipse 5,8 –(as orações dos santos); Apocalipse 8,3-4 (as orações dos santos).

E em outros tantos textos a Sagrada Escritura nos mostra isso (cf. Is 14,9-10; 1Pd 3,19; Mt17,3; Ap 7,10).


Fonte : Twitter.com/Katholikos2









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24 julho 2018

É agradável a Deus culto aos santos?




As bases bíblicas do culto aos Santos estão desde o Antigo Testamento.

Até o século II a.C. os judeus acreditavam na existência do Hades ou Sheol e no adormecimento da consciência dos defuntos num lugar subterrâneo, incapazes de serem punidos ou contemplados.

Mas a partir do século II a.C. esta concepção foi abandonada pelo povo de Israel, passando a crer que a consciência dos irmãos falecidos continuava lúcida e que eles vivem como membros do seu povo, e solidários com os fiéis peregrinos na terra, e intercedendo por eles.

Muitos não católicos usam passagens do Antigo testamento para afirmar que os mortos não podem orar por nós:

“Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem a sepultura” - Salmos 115, 17.

“Porque não pode louvar-te a sepultura, nem a morte glorificar-te; nem esperarão em tua verdade os que descem à cova” - Isaías 38, 18.

Esquecem que a própria teologia bíblica é um processo evolucional, e que o Novo Testamento, com Cristo, rompe o que era velho, o Antigo testamento.

Cristo aperfeiçoou os ensinamentos do Antigo Testamento, e abriu para nós o reino dos céus, o Paraíso (Lc 23, 43).

A noção de morte no Antigo Testamento é outra que a proposta pelos cristãos.

Apesar disso, há alguns trechos que assinalam a noção de vida consciente após a morte e de intercessão deles:

"E o Senhor disse-me: ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, a minha alma não se inclinaria para este povo; tira-os da minha face e retirem-se" (Jer 15, 1 ss).

"Dá de boa vontade a todos os vivos, e não recuses este benefício a um morto" (Eclo 7,37)

Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. (Sabedoria 3,1)

Em II Mac 15,12-15 lemos: "Parecia-lhe (a Judas Macabeu) que Onias, sumo sacerdote (já falecido!) ... orava de mãos estendidas por todo o povo judaico... Onias apontando para ele, disse: "Este é amigo de seus irmãos e do povo de Israel; é Jeremias (falecido!), profeta de Deus, que ora muito pelo povo e por toda a cidade santa".

"Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis porque ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas" (II Mac 12, 43-46)

A evolução no conceito da vida após à morte é percebida claramente no texto de Macabeus (II Mac 15, 7-17).

Vemos nele que Jeremias, o profeta falecido no século VI a.C., aparece a judas Macabeu no século II a.C., juntamente com o Sumo Sacerdote Onias (também já falecido), como “o amigo de seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo, pela cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus”.

Diz a “Bíblia de Jerusalém” em nota de rodapé a 2Mc 15, 14: “Esse papel conferido a Jeremias e a Onias é a primeira atestação da crença numa oração dos justos falecidos em favor dos vivos”.

O problema é que os protestantes não têm esse livro em suas bíblias, pois consideraram que eles não pertenciam à Bíblia judaica primitiva.

O Antigo Testamento foi adotado, pela Igreja Católica, a partir de uma tradução para o grego de escrituras hebraicas antigas chamada de Septuaginta. Entre os judeus, a Septuaginta era tida como uma tradução não muito segura.

O cânon judeu estabelecido pelo Concílio de Jamnia (século I d.C e início do II d.C.) não correspondia aos livros da Septuaginta, que tinha livros a mais, entre eles os 2 livros dos Macabeus.

Os papas Dâmaso I e Inocêncio I determinaram que esses livros extras seriam definitivamente associados ao Antigo Testamento no século V.

Mas é importante notar que profecias como a de Malaquias (Malaquias 4:5-6), com a qual termina o Antigo Testamento cristão, por exemplo, não constituem o Antigo testamento hebraico, que terminaria em 2 Crônicas 36, 23.

Os manuscritos mais antigos do Novo Testamento que chegaram até nós foram o Códice Sinaítico e o Códice Vaticano, que datam dos séculos IV e V d.C.

Apesar de os protestantes terem livros faltando em suas Bíblias, por isso um dos motivos de eles não acreditarem na intercessão dos santos, o Novo Testamento deixa claro que a intercessão dos santos é possível e que eles participam mesmo depois de mortos da história da Igreja.

Na epístola aos Hebreus, o autor recorda os justos do Antigo Testamento, e mostra a sua solidariedade com os ainda vivos na terra.

Ele imagina esses justos colocados num estádio como que a torcer pelos irmãos ainda existentes neste mundo; constituem uma densa nuvem de torcedores interessados. São testemunhas que nos acompanham nesta luta de hoje:

“Portanto também nós, com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto” (Hb 12,1).

Os mortos não estão dormindo. Os protestantes em sua maioria ensinam que os mortos estão “dormindo” e que somente na volta de Jesus haverá a ressurreição de todos; portanto, para eles, não há ninguém no Céu ainda, mesmo que seja apenas com a alma, como ensina a Igreja Católica.

Ora, desde os primórdios da Igreja ela acredita na imortalidade da alma, e que cada pessoa é julgada por Deus, imediatamente após a morte (Hb 9,27), recebendo já o seu destino eterno. E isto é muito claro nas Sagradas Escrituras.

A Carta aos Hebreus diz claramente, “como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo”. (Hb 9,27)

Em Mateus 10,28 Jesus diz: “não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma (‘psyché”); temei, antes, aquele que pode fazer perecer na geena o corpo e a alma”.

A palavra grega “psychè” significa alma; então, o texto afirma a sobrevivência da alma após a destruição do corpo da pessoa.

Em Lucas 16,19-51, na parábola do rico e do pobre Lázaro, Jesus apresenta a sobrevivência consciente tanto dos justos como dos injustos.

O rico após a morte vai para um lugar de tormento; e o pobre para um lugar de gozo. Isto enquanto a vida continua na terra, quer dizer, antes da volta de Jesus. O rico tinha cinco irmãos que poderiam também se perder também; e mostra que os defuntos sobrevivem após a morte e recebem já o prêmio ou o castigo.

Não se pode dizer que está parábola é apenas mera ornamentação; ao contrário, traz um ensinamento religioso e doutrinário fundamental.

A ressurreição da carne no último dia, na consumação da história com a volta de Jesus, dará algo mais à felicidade dos justos cujas almas já estão no gozo da presença de Deus.

Essas almas se unirão a seus corpos ressuscitados e viverão na plenitude de suas pessoas. A ressurreição da carne completará a ordem e a harmonia que a alma santa já desfruta após a morte.

Vemos em Ap 6, 9-11 que as almas dos justos martirizados aspiram, na presença de Deus, à plena restauração da ordem e da justiça violadas pelo pecado; e assim, esperam algo que ainda não aconteceu, e que vai acontecer só na Parusia.

Embora elas já estejam revestidas de vestes brancas, que é símbolo da vitória final e da bem-aventurança, continuam a acompanhar a nossa história, aguardando com expectativa o julgamento do Senhor (Apo 6,11).

“Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários.

E clamavam em alta voz, dizendo: Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra? Foi então dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos.” (Ap 6,9-11)

A morte para os cristãos é o encontro com Cristo, como nos diz São Paulo (II Cor 5,1).

Os mortos são seres conscientes para os cristãos (I Pe 3, 18-19; 4, 6)

Com a morte somos julgados imediatamente (Hb 9,27) (RM 14,10) (II Cor 5, 10) e vamos para o céu ou para o inferno (Lc 23,42), (Mt 25,34), (Mt 25,41).

Os que ainda não estão totalmente puros (Sl 14; Hb 12, 22-23; Mt 5,8) para entrarem no céu, e ainda devem expiar algum pecado (I Cor 3, 10-15), (pois cada pecado tem sua consequência e Deus perdoa nosso pecado, mas devemos pagar de alguma forma pelo erro que cometemos), ficam em Purificação, o Purgatório (Mt 12, 32), (I Cor 3, 10-15), (II Mac 12, 43-46), (I Cor 15,29).

Assim, no cristianismo, a morte é uma passagem para o céu e todos os que estão no céu podem orar pelos que estão na terra, já que "Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu." (Mt 22,30).

Apesar de ainda estarem esperando a ressurreição, os homens e mulheres justos, já estão na presença de Deus (Apoc 7,13-15), esperando pelo desfecho final da história humana (Apoc 6,9-11), assim, sendo como os anjos, intercedem por nós continuamente (Apoc 8,3-4), (Mt 18,10).

Fonte: santossanctorum.blogspot.com.br

Paulo Lelis

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17 fevereiro 2016

Lutero e o demônio da contestação



Gregorio Vivanco Lopes

Em 2017 completam-se 500 anos desde que o monge apóstata Martinho Lutero afixou suas 95 Teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, início simbólico da heresia protestante, que quebrou a unidade da Cristandade.

Hoje em dia, a decadência moral e religiosa chegou a tal ponto, que até nos meios católicos já há quem fale em comemorar essa abominação. Mas não é esse, por agora, o nosso tema.

Também não pretendemos aqui insistir sobre a personalidade desse heresiarca, fautor de blasfêmias contra Nosso Senhor Jesus Cristo, contra a Igreja e o Papado, nem sobre seus incitamentos a práticas pecaminosas, nem sobre sua vida pessoal, pois era tido como bêbado, impuro, juntado com uma freira apóstata etc.

Ao leitor desejoso de inteirar-se sobre esses e outros aspectos da vida de Lutero, sugiro vivamente que leia os documentados artigos que Plinio Corrêa de Oliveira escreveu a respeito.(1)

Meu tema hoje é outro e muito específico. Trata-se de entender Lutero enquanto contestatário da autoridade do Papa e da Igreja. Desse espírito contestatário quis Plinio Corrêa de Oliveira distanciar-se explicitamente quando, em seu famoso Manifesto da Resistência, hoje mais atual do que nunca, declarou expressamente: “jamais empregaremos os recursos indignos da contestação”.(2)


A vida esclarece a História

Ficou famoso o dito de Cícero, Historia Magistra Vitae. Sim, a História é mestra da vida, pois pelo estudo da História temos elementos preciosos para interpretar muita coisa do mundo que nos cerca.

Mas também é verdade, dizia Plinio Corrêa de Oliveira, que a vida nos ensina a interpretar a História. Pois sendo a natureza humana substancialmente a mesma em todas as épocas e latitudes, com suas paixões, seus problemas e seus anseios, se compreendermos como se desenvolve a vida dos homens que caminham sob nossos olhos, teremos mais facilidade para entender os acontecimentos que se desenrolaram no passado.

Assim sendo, compreenderemos mais facilmente no que consistiu a contestação de Lutero, se entendermos os fenômenos de contestação que presenciamos durante esta nossa vida.

Para quem já vai adiantado em anos, como é o meu caso, o problema se esclarece tendo por base um conjunto de observações e análises que tive oportunidade de fazer, nos moldes da admirável escola de pensamento e estudos legada por Plinio Corrêa de Oliveira.

Entro, pois, diretamente no tema.

Argumentos não demovem o contestatário

Assim como os demônios da luxúria, da inveja, da preguiça e tantos outros podem instalar-se numa alma, existe também um demônio da contestação com poderes análogos.

É de conhecimento comum que o corpo humano está sujeito a ser invadido por vários tipos de vírus que, cada um conforme sua natureza, sabem onde instalar-se — nos pulmões, no intestino, na garganta ou onde for. Assim também na alma humana, cada demônio sabe por onde entrar e onde agir. E o demônio da contestação às autoridades legítimas ― é pelo menos essa a minha observação ― costuma aninhar-se numa região muito profunda da alma, que não é alcançável por argumentos lógicos nem explicações de ordem natural.

Em outras palavras, não se queira convencer um contestatário inveterado de que ele está errado, pois os argumentos, por melhores e mais bem dados que sejam, batem contra uma muralha de proteção construída por esse demônio, que isola o contestatário e o torna infenso a qualquer argumento razoável ou de bom senso.

Um outro aspecto da contestação que é necessário ter e vista, é seu caráter obsessivo, pois a vítima como que não consegue pensar em outra coisa, nem deslindar-se da situação em que se colocou.

O pretexto: falhas e defeitos da autoridade

Mas o demônio da contestação desenvolve ainda outras atividades. Ele procura cuidadosamente, na autoridade legítima que ele quer contestar, possíveis falhas ou defeitos, que podem até ser muito reais, pois neste vale de lágrimas todos estamos sujeitos a falhas e defeitos. E tais falhas e defeitos são usados pelo contestatário como sendo a razão (de fato, são o pretexto) para contestar a própria legitimidade da autoridade.

Esse aspecto da atividade diabólica é muito insidioso, pois além de ajudar o objetante a “justificar” para si mesmo o fato de se ter tornado um contestatário, lhe dá direito de cidadania junto aos outros da mesma nação, região ou grupo em que ele se insere. Pois o contestatário sempre poderá alegar que sua posição é de zelo pelo bem e pela virtude, em face dos erros e falhas da autoridade.

Foi o que fez Lutero, atacando a venda de indulgências (real ou imaginada) por Leão X, e outras alegações do gênero, como razões para contestar em princípio a autoridade do Papa e, portanto, da Santa Igreja.

A frente ampla contestatária

Mas há mais. O demônio da contestação não é um ser isolado. Ele pertence a uma família de espíritos contestatários que, todos eles, possuem umas como que antenas de transmissão e recepção, por onde uns aos outros se localizam, se comunicam e se unem, com o fim de constituir uma frente ampla contestatária.

Note-se bem. Como todos os demônios do inferno, estes também estão divididos entre si e se odeiam mutuamente. Mas em face de sua finalidade contestatária, deixam de lado, põem entre parênteses, suas divergências, para melhor unir-se e fortalecer a contestação, que é sua finalidade primordial.

Lutero conseguiu alianças com numerosos príncipes alemães e boa parte do Clero, o que lhe deu uma força extraordinária para avançar contra a Roma dos Papas.

Se os impugnadores da autoridade legítima chegam a constituir uma rede suficientemente forte, os demônios da contestação podem conseguir derrubar a autoridade visada, além de, evidentemente, perderem as almas daqueles que lhes deram acolhida e se tornaram seus instrumentos. A História nos apresenta alguns casos paradigmáticos, como os da Revolução Francesa e da Revolução bolchevique.

No caso de Lutero, porém, ele não conseguiu obter seu objetivo último, que era a destruição da Igreja, porque esta tinha a seu favor a promessa de Cristo de que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt 16,18), e que Ele a defende mesmo nas situações mais calamitosas (como por exemplo a atual).


Pode o contestatário livrar-se do demônio da contestação?

Sem querer fazer um tratado sobre a contestação, tarefa para a qual seriam necessárias outras luzes e outros estudos, e que, em todo caso, nos levaria muito longe, é preciso, entretanto, dizer ainda uma palavra sobre o seguinte ponto: pode uma pessoa, na qual se aninhou o demônio da contestação, livrar-se dele? Pode essa pessoa arrepender-se de ter dado guarida a esse demônio, arrepender-se, bater no peito, expulsá-lo de si e voltar a uma situação normal? Sobretudo tendo em vista que argumentos e bom senso não são eficazes para demovê-la?

Não pretendo referir-me às vias expressas postas ao alcance dos fiéis pela Igreja, como são os exorcismos, pois esta é uma matéria muito complexa, que exige especialistas para ser tratada. Não nego que o exorcismo possa ser um meio adequado, apenas não é meu objetivo aqui tratar dele.

Meu propósito é mais singelo. Dentro das vias habituais e conhecidas da graça, pode uma pessoa livrar-se do demônio da contestação, depois de lhe ter dado guarida?

Tanto quanto consigo ver, pode. E por dois meios. O primeiro é uma ação fulminante da graça na alma, que se exerce a rogos de Nossa Senhora, e que num instante livra a vítima do demônio, e a faz como que acordar do pesadelo para a vida real.

O outro caminho, mais comum, é pavimentado pelas graças que vão sendo dadas com alguma frequência, para ir alertando a pessoa-vítima sobre a situação em que se encontra. Pois Deus não quer a morte do ímpio, “mas que se converta e viva” (Ez 33,11). Essas graças fazem com que a pessoa pergunte a si mesma: será que estou certo? Estarei no bom caminho? Eu não deveria mudar minha posição e pedir perdão? Será muito duro fazer isso, mas não está em jogo a minha salvação? São problemas de consciência que o contestatário se põe.

Se a pessoa, assim solicitada pela graça, fechar seu coração a essas perguntas, melhor se diria a essas inspirações do Espírito Santo, pouco se pode esperar de sua conversão. É o caso de Lutero, que a beata Sóror Maria Serafina Micheli viu no inferno, atormentado pelos demônios.(3)


Mas se o contestatário, pelo contrário, for obediente à voz da graça, rezar pedindo clareza, suplicar a Nossa Senhora que o conduza, renunciar a deixar-se guiar por seu egoísmo, pedir forças para fazer a imolação interior da própria vontade e o sacrifício das próprias vistas equivocadas, então tudo se pode esperar. Nossa Senhora não rejeita um coração contrito e humilhado (Sl 50,19) que sinceramente busca servi-La em todas as coisas.

Foi o que faltou a Lutero fazer. Como, pois, comemorar sua revolta?


(*) Gregorio Vivanco Lopes é advogado e colaborador da ABIM

De: Pregunte e responderemos


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26 janeiro 2016

Testemunho de um ex-protestante: SEPARAR CRISTO E IGREJA?




Em síntese: O Sr. Luiz Fernando Pérez, ex-protestante, fala de sua experiência. Refere-se ao fato de que Jesus fundou sua Igreja, da qual Ele é inseparável. O protestantismo separa Cristo e Igreja; nem dentro do âmbito protestante se guarda a unidade. Outras incoerências são ainda apontadas pelo autor do depoimento.

Via internet a Redação de PR recebeu a mensagem do sr. Luiz Fernando Pérez, que, de protestante, se converteu ao Catolicismo e comenta o princípio protestante "Somente Cristo", princípio que o autor julga ser anticristão.
Segue-se o texto de L. F. Pérez:

O PRINCÍPIO "SOLUS CHRISTUS" VISTO POR UM EX-PROTESTANTE

No tempo em que nos importa viver, no qual os ventos do ecumenismo tornam a soprar cada vez com mais firmeza, não é nada fácil tentar dizer três ou quatro verdades sobre os nossos "irmãos separados". Eu, que durante nove anos de minha vida fui protestante, sei como é estar dos dois lados da cerca. É uma experiência inegavelmente peculiar. Apesar de encontrarmos do lado protestante uma grande maioria que julga que o Catolicismo romano não é cristão, do lado católico não observamos com abundância aqueles que colocam em dúvida a natureza cristã do protestantismo. Sem querer valorizar demais, posto que não vale a pena, a opinião anticatólica deste grupo de protestantes, creio ser necessário comentarmos alguns pontos-chave para que os católicos em geral, ou pelo menos aqueles que mantêm um contato maior com protestantes, reconheçam que deveriam ser menos otimistas quanto à existência de um elemento cristão genuíno no cristianismo protestante.

Desde seu surgimento, na reforma, o protestantismo elaborou uma série de lemas que se tornaram verdadeiros dogmas de fé do cristianismo protestante. Analisemos um desses lemas, e vejamos o que ocorre na prática.

Solus Christus

A princípio nada haveria a opor a esta doutrina essencial da fé cristã, pela qual reconhecemos que a figura e a pessoa de Jesus Cristo é, por si só, o centro de nossa vida e esperança. Indubitavelmente, sem Cristo não há cristianismo. Contudo, acontece que na Bíblia ocorre uma realidade muito clara: uma vez que Jesus Cristo se encarnou e fundou sua Igreja, não podemos mais separar a realidade de Cristo da realidade da Igreja. A Palavra de Deus é clara neste ponto: a Igreja é o Corpo de Cristo (Cl 1, 18). Diz mais: a Igreja é a Sua Plenitude (Ef 1, 23). Quem persegue a Igreja, persegue o Cristo (At 9, 1-6) e, caso a relação não esteja suficientemente nítida, podemos perceber que a relação entre Cristo e a Igreja é um mistério, ao qual São Paulo compara o mistério da união entre o homem e a mulher (Ef 5, 31-32).

Portanto dizemos a verdade se ensinamos que não pode crer em "Solus Christus" aquele que aceita o Cristo, mas rejeita a Igreja, indissoluvelmente unida a Ele por todo o sempre. Por isso o Símbolo Niceno-Constantinopolitano afirma em um de seus pontos: "Creio na Santa Igreja Católica e apostólica". Ou seja, desde a antiguidade era demonstrado que a fé ou crença na Igreja era parte da fé cristã. E se o Cristo em pessoa afirmou, sobre o matrimônio, que "o que Deus uniu o homem não separe", mais ainda devemos crer que a união de Cristo com a Igreja está selada eternamente por vontade divina.

Se isto está claro, cabe aqui uma pergunta: atacar a unidade da Igreja não é exatamente o mesmo que atacar o Cristo? É cristão, portanto, dividir o corpo de Cristo em milhares de fragmentos? Ou, pelo contrário, a divisão da unidade do corpo de Cristo não é a arma mais poderosa de que Satanás se poderia servir durante a história da Igreja?

Quando era protestante, eu via como secundário este assunto de unidade da Igreja e, acima de tudo, sacrificável ao "deus" da pureza doutrinária. Ou seja, a verdadeira doutrina expressa "somente na Bíblia" seria um tesouro de muito mais valor que a unidade visível da Igreja de Cristo. Porém não era somente isso. Assim como a imensa maioria dos protestantes, eu tinha um conceito sobre a Igreja que não se acha em lugar nenhum da Bíblia, a não ser através de interpretações torcidas e contorcidas. É o que eu chamo de conceito "docetista"da Igreja, conceito que nega possa haver uma Igreja visível, organizada e hierarquizada, para se aceitar uma Igreja desorganizada, invisível, pseudo-etérea, sem unidade orgânica real.

Sem muita demora, vejamos o que diz a Bíblia sobre a Igreja:
1. Cristo deixou muito claro que a unidade dos cristãos deveria ser semelhante à sua unidade com o Pai e que por essa unidade o mundo deveria crer.
2. A Igreja teria uma hierarquia muito bem definida: apóstolos, entre eles Pedro, o primeiro, e logo os bispos e anciãos (presbíteros).
3.  A Igreja adotaria um sistema de análise chamado Conciliar, tal como se vê em Atos 15, com o particular fato de que Pedro iniciou os debates sobre os temas em pauta naquele Concílio. Além disso, as disposições do Concílio eram de aceitação obrigatória por toda a Igreja.
4.  Os apóstolos eram intolerantes com aqueles que causavam divisões. Encabeçados por Paulo, que teve que se deparar com os "denominacionalismos" de Corinto (1Cor 1, 10-13). Também ele deu a Tito uma ordem bem clara sobre o que ele deveria fazer com aqueles que causassem divisões. Deveria admoestá-los primeiro e depois expulsá-los da Igreja, porque se haviam pervertido (Tt 3, 10-11). Judas (Jd 19) afirma que os que causam divisão não possuem o Espírito. E, digamos alto e claro, o apóstolo João mostra em 1 Jo 2, 18-19 que os que saem da Igreja são anticristos, ainda que alguns queiram interpretar este versículo de uma forma mais suave.
Bem, alguém deve estar se perguntando: "E o que tem a ver isto tudo com o protestantismo e 'Solus Christus"?".

Respondo: tem tudo a ver! E mais: o protestante que entende esta realidade, se é honesto e inteligente, necessariamente tem de deixar de ser protestante, a menos que queira pecar gravemente contra Deus.

É evidente que um sistema religioso que afirma aceitar inteiramente o Cristo e todo o seu ensinamento, mas que leva em sua essência o vírus mortal da divisão do corpo de Cristo, somente pode ser definido como anticristo. Não há justificativa alguma para o fato de que o protestantismo tem sido absolutamente incapaz de manter uma unidade eclesial interna minimamente respeitável. Quando os protestantes se insurgem em apontar, com seus tratados e comentários bíblicos, os erros doutrinários do catolicismo, não se dão conta de que a simples existência de uma miríade de denominações protestantes independentes umas das outras é, nos seus olhos, uma trave de proporções apocalípticas.

Parece forte dizer isso, mas a verdade é que o protestantismo é a negação de Cristo desde o momento em que, na prática,nega a existência de uma só Igreja de Cristo, com uma só fé, com um só batismo e um só credo. E, negando a existência dessa Igreja, que é o corpo de Cristo, está negando o próprio Cristo, ainda que inconscientemente. Ponto final!

Se o protestantismo tivesse a capacidade de ter-se organizado em uma só denominação, poderíamos hoje contemplar a reforma a partir de um prisma totalmente diferente. Porém, a reforma não foi o que pretendia ser, senão o maior levante de aniquilação da Igreja, com a desculpa de uma verdadeira mudança. Aproveitaram da fraqueza da Igreja da época para tentar destruí-la por completo, mas, graças a Deus, foi na fraqueza que a Igreja despertou com força para novos desafios, ainda que lhe custasse muito recuperar o que havia perdido com a corrupção interna e os desajustes doutrinais e externos.

Para finalizar, ainda me caberia verificar muitas das ramificações desse desastre que é o protestantismo para a cristandade, mas me contentarei em assinalar pelo menos algumas poucas incoerências da agressiva dinâmica dialética que os protestantes usam contra a Igreja Católica:
1.  Os protestantes rejeitam a Igreja Católica por não se basear somente na Bíblia. A verdade é que eles, que dizem basear-se somente na Bíblia, não conseguem chegar a um acordo sobre doutrinas como a Eucaristia, sacramentos, organização eclesial, doutrinas da graça e salvação (calvinismo e arminianismo), etc, etc, etc.
2.  Os protestantes atacam a Igreja Católica por valorizar o papel da Tradição, mas eles mesmos são escravos de suas próprias tradições interpretativas da Palavra de Deus. e, ainda por cima, aceitam grande parte da linguagem e do conteúdo doutrinal que a eles chegou através da Tradição (Trindade, Cânon da Bíblia, Pecado Original, Domingo como dia do Senhor).
3.  Os protestantes usam a Bíblia como uma arma contra determinadas doutrinas e práticas católicas, porém nada dizem sobre o que essa mesma Bíblia fala sobre divisões na Igreja, tão presentes nas suas igrejas.
4.  Os protestantes atacam a Igreja Católica acusando-a de possuir um sistema de governo ditatorial, porém resulta que boa parte das igrejas protestantes exercem uma tirania a nível denominacional que faria você rir da severidade disciplinar do cardeal Ratzinger.
Por fim, para não estender-me demais, terminarei com uma reflexão. Creio que tanto aqueles que nasceram numa família protestante, como aqueles que saíram da Igreja Católica para o protestantismo deveriam voltar com urgência para a Igreja de Cristo. É incompatível ser de Cristo e pertencer a um sistema religioso que está dividindo continuamente o Corpo de Cristo, que nega o princípio da eficácia regeneradora que o Espírito Santo possui na sua condução da Igreja. Muitos protestantes nunca tinham sido defrontados com esta realidade que estou escrevendo. Outros tomaram conhecimento, mas resolveram continuar seguindo separados da Igreja, e, portanto, apesar de se revoltarem ao ler isso, separados de Cristo.

É nossa missão evangelizá-los e/ou resistir às suas tentativas de levar católicos da Igreja de Cristo. Sem dúvida, muitos católicos precisam de um contato maior com Cristo, porém este encontro não se dá fora do Corpo de Cristo, nas igrejas protestantes, mas um encontro na Igreja do Cristo verdadeiro.


REFLETINDO...

O arrazoado do sr. Pérez é simples e consistente. Com efeito, Jesus Cristo quis fundar a Igreja que Ele disse ser "sua Igreja" (cf. Mt 16, 16-19) e que São Paulo considera ser o Corpo de Cristo... Corpo no qual Cristo se plenifica. Se assim é, quem divide a Igreja de Cristo divide o próprio Cristo (cf. 1Cor 1, 11-13), é anticristão.

Dirá alguém: os homens da Igreja podem falhar, de modo que se torna necessária uma reforma periódica. Reconhecemos o que há de verídico nessa afirmação, mas acrescentamos que a reforma não pode equivaler a uma ruptura com a Igreja fundada por Cristo. Este assegurou à sua Igreja infalível assistência até o fim dos tempos (cf. Mt 28, 18-20); prometeu-lhe também o Espírito Santo como Mestre da verdade (cf. Jo 14, 26; 16, 14s). Por conseguinte, não se pode crer que tenha deixado sua Igreja entregue ao léu, de modo a ser necessário que os homens refaçam "a obra abandonada por Cristo". O que os homens podem fazer é uma sociedade humana e animada por boas intenções, mas nunca farão um Sacramento ou uma realidade divino-humana.

Dirão ainda: a Igreja Católica tem suas muitas denominações (franciscanos, jesuítas, beneditinos, salesianos...) como o protestantismo tem suas denominações (luteranos, metodistas, adventistas, neopentecostais...). - Em resposta registramos que as Ordens e Congregações Religiosas do Catolicismo não quebram a unidade da Igreja, pois estão sujeitas à mesma autoridade suprema, professam a mesma fé e recebem os mesmos sacramentos. No protestantismo, ao contrário, cada denominação toma o nome de igreja e existe independentemente das demais; assim dividem a Igreja e o próprio bloco protestante.

E a propalada pureza de doutrina dos protestantes? - Já os reformadores divergiam entre si no tocante a pontos importantes (SS. Trindade, Eucaristia, hierarquia da Igreja...). A tese do livre exame da Bíblia favorece o subjetivismo, as múltiplas interpretações do texto sagrado, donde a pluralidade de orientações doutrinárias do protestantismo.

Possam estas considerações falar fundo ao coração dos irmãos de boa vontade.


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28 agosto 2015

Santo Agostinho interpretava a bíblia como os protestantes?




Escrito por José Miguel Arráiz


Introdução

Recentemente tive a oportunidade de dialogar com um amigo protestante (batista) que me afirmava que diversos Padres da Igreja, entre eles Santo Agostinho, tinham "posturas protestantes", especialmente quando interpretavam Mateus 16,18, passagem esta que - segundo ele - importava em rejeição ao entendimento católico atual sobre o primado de Pedro e o Papado.

Quem foi Santo Agostinho?

Santo Agostinho é considerado como um dos maiores Padres da Igreja. Sua influência para a posterioridade foi notável. O bispo de Hipona era teólogo, filósofo, místico, poeta, orador, apologista e escritor. Nascido em 354 d.C., recebeu uma educação cristã desde menino graças à sua mãe; mas aos 19 anos acabou abandonando a fé católica. Estudou Hornêncio, Cícero e chegou a dar ouvidos aos maniqueus, tornando-se um anticatólico convencido. Após uma longa luta interior, acabou por compreender que era necessária a fé para alcançar a sabedoria e que a autoridade em que se apoiava a fé era a Escritura, avalisada e lida pela Igreja. Depois de opor Cristo à Igreja, descobriu que o caminho que levava à Cristo era precisamente a Igreja. Em 391 foi ordenado sacerdote e em 395 (ou 396) tornou-se bispo. Interveio nas controvérsias contra os maniqueus, donatistas, pelagianos, arianos e pagãos. Morreu em 430, deixando-nos uma enorme quantidade de obras, legado que perdura até os dias de hoje.

Qual a Importância das Obras de Santo Agostinho?

Os escritos de Santo Agostinho (assim como os escritos dos Padres da Igreja e outros escritores eclesiásticos) são importantíssimo não apenas para os estudiosos de Patrística e Patrologia mas também para todos os cristãos que têm o interesse de conhecer a fundo o pensamento da Igreja em seus primeiros séculos e a sua forma de interpretar as Escrituras.

Em virtude destas circunstâncias, tive o desejo de estudar os escritos de Santo Agostinho, não apenas nos pontos em que os protestantes costumam citar, mas em sua totalidade, para que assim pudesse fazer uma comparação justa de seu pensamento.

Santo Agostinho e o Primado de Pedro

Os testemunhos de Santo Agostinho sobre o primado de Pedro são bastante numerosos; no entanto, alguns textos de Santo Agostinho são frequentemente retirados do seu respectivo contexto ao serem citados por protestantes, induzindo um pensamento contrário. Examinemos alguns desses textos e a visão global do santo acerca desse tema:
"São Pedro, o primeiro dos apóstolos, que amava ardentemente a Cristo e que chegou a ouvir dele estas palavras: 'Pois eu te digo: tu és Pedro', havia dito antes: 'Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo'. E Cristo lhe replicou: 'Pois eu te digo: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Sobre esta pedra edificarei esta mesma fé que professas. Sobre esta afirmação que tu fizeste, 'tu és o Messias, o Filho do Deus vivo', edificarei a minha Igreja, porque tu és Pedro'. 'Pedro' é uma palavra que provém de 'pedra' e não o contrário. 'Pedro' deriva de 'pedra', do mesmo modo que 'cristão' deriva de 'Cristo'. O Senhor Jesus, antes de sua Paixão - como sabeis - elegeu aos seus discípulos, a quem conferiu o nome de 'apóstolos'. Entre eles, Pedro foi o único que  representou a totalidade da Igreja em quase todas as partes. Por isso, enquanto ele apenas representava em sua pessoa a totalidade da Igreja, pôde escutar estas palavras: 'Te darei as chaves do reino dos céus'. Porque estas chaves eram recebidas não por um único homem, mas pela única Igreja. Daí a excelência da pessoa de Pedro, enquanto que ele representava a universalidade e a unidade da Igreja quando lhe foi dito: 'Eu te entrego', tratando-se de algo que foi entregue a todos. Portanto, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do reino dos céus, escutai o que diz o Senhor, em outro lugar, a todos os seus apóstolos: 'Recebei o Espírito Santo'. E continua: 'Aqueles a quem perdoardes os pecados, estes lhes serão perdoados; aqueles a quem retiverdes [os pecados], estes lhes serão retidos'. Neste mesmo sentido, o Senhor, depois de sua ressurreição, confiou também a Pedro suas ovelhas, para que as apascentasse. Não é que ele fosse o único dos discípulos que tivesse o encargo de apascentar as ovelhas do Senhor; é que Cristo, pelo fato de se referir a apenas um, quer significar com isto a unidade da Igreja. E se se dirige a Pedro com preferência aos demais é porque Pedro é o primeiro entre os apóstolos. Não te entristeças, apóstolo! Responde uma vez, responde duas, reponde três. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que por três vezes o temor vencer a tua presunção. Três vezes deverá ser desatado o que por três vezes havias atado. Desata pelo amor o que havias atado pelo temor. Apesar de sua debilidade, por primeira, por segunda e por terceira vez confiou o Senhor as suas ovelhas a Pedro" (Santo Agostinho, Sermão 295; PL 38,1348-1352).

Santo Agostinho também escreveu:
"Cristo - como vês - edificou a sua Igreja não sobre um homem, mas sobre a confissão de Pedro. Qual é a confissão de Pedro? 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. Aqui está a rocha para vós; aqui o fundamento; aqui encontra-se onde a Igreja foi edificada, contra a qual as portas do inferno não podem conquistar".

Quando um protestante lê Santo Agostinho dizendo que a pedra sobre a qual se edificará a Igreja é a fé (e não Pedro), assume que tal texto implica em rejeição ao primado de Pedro. Isto ocorre porque eles interpretam que, sendo a fé "a pedra" sobre a qual Cristo edificou a sua Igreja, isto implicaria que qualquer pessoa que confessasse a Cristo como Filho de Deus por revelação divina será também uma pedra em que se edifica a Igreja; com efeito, poderia "ligar e desligar" tal como Pedro. Sob esta ótica, todos os cristãos teriam a mesma autoridade [que Pedro]; os bispos e presbíteros teriam a função de apascentar o rebanho; porém, em última instância, a interpretação final da Escritura repousaria em cada crente.

O Catecismo da Igreja Católica explica a posição católica da seguinte maneira:
"No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar (cf. Mc. 3,16; 9,2; Lc. 24,34; 1Cor. 15,5). Jesus lhe confia uma missão única. Graças à uma revelação do Pai, Pedro confessou: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. Então Nosso Senhor lhe declarou: 'Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Hades não prevalecerão contra ela' (Mt. 16,18). Cristo, 'Pedra viva' (1Ped. 2,4), assegura à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte. Pedro, em razão da fé confessada por ele, será a rocha inquebrantável da Igreja. Terá a missão de custodiar esta fé perante todo desfalecimento e de confirmar nela os seus irmãos (cf. Lc. 22,32)" [CIC 552].

"Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: 'A ti te darei as chaves do Reino dos céus; e o ligares na terra será ligado nos céus; e o que desligares na terra será desligado nos céus' (Mt. 16,19). O poder das chaves designa a autoridade para governar a casa de Deus, que é a Igreja. Jesus, 'o Bom Pastor' (Jo. 10,11) confirmou este encargo após sua ressurreição: 'Apascenta as minhas ovelhas' (Jo. 21,15-17). O poder de 'ligar e desligar' significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar sentenças doutrinárias e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos (cf. Mt. 18,18) e particularmente pelo de Pedro, o único a quem foi confiada explicitamente as chaves do Reino" [CIC 553].

"O Senhor fez de Simão, a quem deu o nome de Pedro, e somente a ele, a pedra de sua Igreja. Lhe entregou as chaves dela (cf. Mt. 16,18-19); o instituiu pastor de todo o rebanho (cf. Jo. 21,15-17). 'Resta claro que também o Colégio dos Apóstolos, unido à sua Cabeça, recebeu a função de ligar e desligar dada a Pedro' (LG 22). Este ofício pastoral de Pedro e dos demais Apóstolos pertence aos fundamentos da Igreja. Continua pelos bispos sob o primado do Papa" [CIC 881].

Uma análise detalhada dos textos de Santo Agostinho demonstra que a sua postura, mais do que aproximar-se da postura protestante, concorda com a posição católica, reconhecendo a Pedro, em razão da fé confesssada por ele, como o primeiro dos Apóstolos, como representante da Igreja inteira e portador das chaves do reino dos céus. Os bispos em comunhão com ele também podem ligar e desligar (observe-se que o Santo também relaciona, ao contrário dos protestantes, o poder de ligar e desligar com a autoridade de perdoar os pecados).

Vejamos agora alguns textos adicionais de Santo Agostinho que, comparados com outros, nos dão uma perspectiva real da opinião do Santo:
"Ainda prescindindo da sincera e genuína sabedoria..., que em vossa opinião não se encontra na Igreja Católica, muitas outras razões me mantém em seu seio: o consentimento dos povos e das gentes; a autoridade, erigida com milagres, nutrida com a esperança, aumentada com a caridade, confirmada pela antigüidade; a sucessão dos bispos desde a própria sé do Apóstolo Pedro, a quem o Senhor confiou, depois da ressurreição, o apascentamento de suas ovelhas até o episcopado de hoje; e, por fim, o próprio apelativo de 'católica', que não sem razão apenas a Igreja alcançou... Estes vínculos do nome cristão - tantos, grandiosos e dulcíssimos - mantêm o crente no seio da Igreja católica, apesar de que a verdade, por causa da torpeza de nossa mente e indignidade de nossa vida, ainda não se apresenta" (Santo Agostinho, C. ep. Man. 4,5).

No texto anterior, Santo Agostinho demonstra ver diferença entre a confissão de fé com o ministério do episcopado. Nem todos, por apenas confessar a fé, são bispos; tampouco todos são sucessores do apóstolo Pedro enquanto o seu ministério.
"Se a sucessão dos bispos for levada em conta, quanto mais certa e benéfica a Igreja que nós reconhecemos chegar até o próprio Pedro, aquele que portou a figura da Igreja inteira, a quem o Senhor disse: 'Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela'. O sucessor de Pedro foi Lino, e seus sucessores em ordem de sucessão ininterrupta foram estes: Clemente, Anacleto, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Aniceto, Pio, Sótero, Eleutério, Victor, Zeferino, Calisto, Urbano, Ponciano, Antero, Fabiano, Cornélio, Lúcio, Estêvão, Sisto, Dionísio, Félix, Eutiquiano, Caio, Marcelino, Marcelo, Eusébio, Miltíades, Silvestre, Marcos, Júlio, Libério, Dâmaso e Sirício, cujo sucessor é o presente bispo Anastácio. Nesta ordem de sucessão, nenhum bispo donatista é encontrado" (Santo Agostinho, Ep. 53,2). 

Novamente aqui vemos o mesmo. Para o santo bispo de Hipona, o ministério concedido a Pedro era desempenhado especificamente pelos bispos de Roma em sucessão ininterrupta. Logo após apresentar este texto a um amigo protestante, ele manteve sua teimosia: "Não vejo aí nenhum Papado". Atitude particularmente obstinada, para quem lê um texto onde se fala da sucessão apostólica dos bispos de Roma, da sua sucessão no ministério do Apóstolo Pedro e, como não fosse suficiente, da lista dos papas até Anastácio (o Papa da época). Que mais poderia querer? Que fosse apresentado o título de "Papa"? Ora, isto também ocorre em inumeráveis ocasiões, as quais seria muito trabalhoso enumerar; conformemo-nos, pois, em apontar uma delas: na obra, "Sobre o Pecado Original", aparece 13 vezes nos capítulos 2, 7, 8 e 9. Ali se expressa, com muita reverência, sobre os pontífices e se lêem frases como "o mais bendito papa Zózimo em Roma" (capítulo 2), "o venerável papa Zózimo" (capítulos 8 e 9), "o mais bendito papa Inocêncio" (capítulos 8 e 10), "o mais bendito papa Zózimo" e "o santo papa Inocêncio" (capítulo 9), "o santo papa Zózimo" (capítulos 10 e 19) e "o papa Inocêncio, de bendita memória" (capítulo 19).

Há evidência adicional suficiente para estarmos seguros de ir contrário à tendência que propõe a negação do primado na raiz destas frases existentes nos sermões do Santo. Quem pensa assim deveria explicar se compartilham do mesmo pensamento de Santo Agostinho quando este afirma que a igreja dos donatistas não pode ser a verdadeira por não ser católica, una, santa e apostólica e que quem se afasta da Igreja sacrifica a sua própria salvação (Bapt. 4,17.24). Segundo estas afirmações, bastaria a confissão de fé como fundamento para a edificação da Igreja?

Diferentemente da postura protestante, para Santo Agostinho não havia motivo justo para se realizar a separação da Igreja e criar a própria (seita), separada dela (E. Cp Parm 2,11,25). Santo Agostinho vê na Igreja de Roma aquela “in qua semper apostolicae cathedrae viguit principatus” [=aquela em que sempre esteve vigente o principado da cátedra apostólica] (Ep 43,7), afirmação que é um reconhecimento claro do primado da Igreja de Roma. Inclusive, atribui a máxima importância às sentenças de Roma em matéria de fé como, por exemplo, quando combate o Pelagianismo. Assim, quando Santo Agostinho disse que as chaves foram recebidas não apenas por Pedro, mas toda a Igreja, está defendendo não apenas o primado petrino, mas também de seus sucessorers. “Sicut enim quaedam dicuntur quae ad apostolum Petrum propriae pertinere videantur, nec tamen habent illustrem intellectum, nisi cum referuntur ad Ecclesiam, cuius ille agnoscitur in figura gestasse personam, propter primatum quem in discipulis habuit” [=Algumas coisas - se diz - parecem pertencep propriamente ao apóstolo Pedro; porém (aqueles que assim pensam) não têm um entendimento iluminado, pois devem se referir à Igreja, da que se confessa representada pela figura de sua pessoa em razão do primado que teve entre os discípulos] (In Ps CVIII, t. XXXVII, col 1431).

Para Santo Agostinho, pela comunhão com a Sé Apostólica se obtém a adesão aos apóstolos e, assim, se está na verdadeira Igreja. É de se entender, portanto, que para ele o testemunho da Igreja do Ocidente é decisiva, já que no Ocidente se encontra a Sé do Príncipe dos Apóstolos: “Puto tibi eam partem orbis sufficere debere, in qua primum apostolorum voluit Dominus gloriosissimo martyrio conorare. Cui Ecclesiae praesidentem beatum Innocentium si audire voluisses, iam tum periculosam iuventutem tuam pelagianis laqueis exuisses” [=Creio que deve bastar para ti essa parte do Orbe, na qual o Senhor quis coroar o primeiro dos Apóstolos com um martírio gloriosíssimo. Se quisesses ouvir ao beato Inocêncio, que é quem preside a esta Igreja, livrarias a tua arriscada juventude das armadilhas pelagianas] (Contra Iulianum pelagianum, I, IV, 13 t. XLIV, col 648).

Adicionalmente vemos o bispo de Hipona submeter as suas obras ao papa Bonifácio, não para o instruir, mas para solicitar-lhe sua aprovação e censura caso necessário: “Haec ergo quae... respondeo, ad tua potissimum dirigere sanctitatem, non tam discenda quam examinanda, et ubi forsitan aliquid displicuerit emendanda, constitui” [=Estas coisas que... respondo, decidi dirigí-las de modo especial à sua santidade, não para instruí-lo, mas para que sejam examinadas e, onde talvez haja algo inconveniente, seja emendado] (Contra duas epist. Pelag. I, 1 t. XLIV, col 549-551).

Logo, é de se entender o porquê de Santo Agostinho também se referir ao bispo de Roma como "o Bispo da Sé Apóstolica". No livro 6 de sua réplica a Juliano, rebate suas calúnias ao Papa Zózimo:
"Por que, para persistir em teu erro perverso, acusas de prevaricação ao bispo da Sé Apostólica, Zózimo, de santa memória? Pois em nada se afastou da doutrina de seu predecessor, Inocêncio I, a quem temes pronunciar o nome. Preferes citar Zózimo porque em princípio agiu com certa benevolência em relação a Celéstio..." (Contra Iulianum pelagianum, VI, XII, 37).

Outro detalhe digno de menção constituiu para ele o fato ocorrido em 422, quando o papa Bonifácio I enviou três cartas respectivamente para os bispos de Tesália, da Ilíria e a Rufo, vigário do Pontífice e metropolita de Tesália. O motivo das cartas era a deposição ou exclusão do bispo Patros Perigênio, batizado e educado em Corinto. Os fiéis de Patros não aceitavam [a deposição], os coríntios reclamavam e os bispos de Tesália, por sua vez, tinham eleito Máximo como pastor da cidade. Nas três cartas se aprecia a consciência ou segurança do Vigário de Cristo como juiz ou instância última para os problemas da Igreja.

Inclusive, há teólogos protestantes que têm aceitado a posição de Santo Agostinho em favor do Primado Romano. O dr. Cesar Vidal Manzanares, em seu "Dicionário de Patrística", exlica:
"...Eclesiologicamente, Agostinho não é unívoco na utilização do termo 'igreja', fazendo referência tanto à comunidade dos fiéis, edificada sobre o fundamento apostólico, como ao conjunto dos predestinados que vivem na feliz imortalidade. Considera herege não ao que erra na fé (Ep. XLIII, I) mas ao que “resiste à doutrina católica que lhe é manifestada" (De Bapt. XVI, 23), a qual encontra-se expressa no símbolo batismal, nos concílios (Ep. XLIV, I) e na Sé de Pedro, que sempre desfrutou do primado (Ep. XLIII, 7)”.

Uma curiosidade: abordando o tema em um foro católico, uma das participantes perguntou ao meu amigo protestante: "Porém... Leste os escritos de Santo Agostinho"; ao que respondeu: "... Não". Tive que me conter, para não replicar: "Então por que tentas ensinar o pensamento agostiniano?".

Santo Agostinho, a Igreja e a Tradição

Santo Agostinho adere plenamente à autoridade da fé, a qual é a autoridade Cristo (C. acad. 3,20,43) manifestada na Escritura, na Tradição e na Igreja (nada de 'sola Scriptura' e livre interpretação particular, ao estilo protestante!). Inclusive, chega a responder taxativamente aos maniqueus:
"Eu não creria no Evangelho se a isso não me movesse a autoridade da Igreja Católica" (C. ep. Man. 5,6; cf. C. Faustum 28,2).

Para Santo Agostinho, é a Igreja que estabelece o cânon das Escrituras (De doct. Chr. 2,7,12), transmite a Tradição e interpreta a ambas (De Gen. litt. O . i. l. 1), dirime as controvérsias (De bapt. 2,4,5) e prescreve a regra de fé (De doct. Chr. 3,2,2). Afirma Santo Agostinho: "Permanecerei seguro na Igreja qualquer que seja a dificuldade que se apresente" (De bapt. 3,2,2), pois "Deus assentou a doutrina da verdade na cátedra da unidade" (Ep. 105,16).

Chega a responder aos pelagianos que deve ser tido por verdadeiro tudo o que a Tradição nos transmitiu, mesmo quando não for possível explicar (C. Iul. 6,5,11), pois os Padres "têm ensinado na Igreja aquilo que da Igreja aprenderam" (C. Iul. o. i. 1,117; cf. C. Iul. 2,10,34).

Santo Agostinho e a Virgem Maria

Santo Agostinho é outro firme defensor da Virgindade Perpétua de Maria. Afirma:
"Virgem concebeu, virgem deu à luz e virgem permaneceu" (Serm. 51,18).

A Volusiano, quando este interpunha as dificuldades da razão, replica: 
"Concedamos que Deus possa fazer alguma coisa que devamos confessar sem indagar. Em tais coisas, toda a razão de fato é o poder de quem pode fazer" (Ep. 137,2,8).

Explica também que Maria emitiu o seu propósito de virgindade antes mesmo da Anunciação, dando início ao ideal cristão da virgindade (Serm. 51,26) e que, embora tenha sempre permanecido virgem, era verdadeiro o matrimônio e o afeto conjugal que a unia a José (De nupt. Et conc. 1,11,12).

Também é um expoente da maternidade divina e não duvida em afirmar que "Deus nasceu de uma mulher" (De Trin. 8,4,7).
"Como é possível confessar na regra de fé que cremos no Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, se se nascido de Maria foi não o Filho de Deus, mas o Filho do homem? Que cristão nega que dessa mulher nasceu o Filho do homem? Mas, Deus feito homem e, portanto, o homem feito Deus" (Serm. 186,2).

Um episódio em seu conflito com o Pelagianismo deu margem para que Santo Agostinho expressasse a sua opinião acerca do estado imaculado da Virgem Maria. Juliano, discípulo de Pelágio, escreveu a Santo Agostinho: "Tu entregas Maria ao diago em razão do nascimento"; ou seja, se [Agostinho] afirmava que o pecado original era transmitido pela geração natural, Maria teria sido súdita do diabo, porque desta maneira descendeu e deste modo foi concebida por seus pais. A isto contestou Santo Agostinho:
"Não confiamos Maria ao diabo pela condição de seu nascimento, mas que a condição do nascimento foi eliminada pela graça da regeneração" (C. Iul. O. i. 4,122). 

Também declarou a este respeito, falando do pecado:
"Exceção feita à santa Virgem Maria, a qual, pela honra devida ao Senhor, não tolero em absoluto que se faça menção ao se tratar de pecado" (De nat. et. gr. 36,42).

Assim, na concepção do Santo, Maria é modelo da Igreja, pelo esplendor de suas virtudes e pela graça de ser corporalmente o que a Igreja deve ser espiritualmente, isto é, virgem e mãe; virgem pela integridade da fé, mãe pelo fervor da caridade (Serm. 188,4; 191,4; 192,2).

Resta claro que os protestantes não concordariam com o pensamento do Santo em nenhum dos pontos anteriores...

Santo Agostinho, o Pecado Original e a Necessidade do Batismo

Santo Agostinho é um dos maiores defensores da doutrina do pecado original e da necessidade do batismo. Para ele, todos, inclusive os que nascem de um matrimônio de crentes, devem ser regenerados pelo batismo, ao qual chama "banho de regeneração", já que diferentemente dos pecados pessoas, o pecado original se contrai do pais:
"...declararei, segundo a fé católica, que qualquer que seja o seu nascimento, [as crianças] são inocentes no que diz respeito aos pecados pessoais e culpadas em razão do pecado original" (Contra Iulianum Pelagianum III, XXIII, 52). 

Para o Santo, a heresia pelagiana é extremamente grave por negar às crianças o revestimento de Cristo.
"Este nosso adversário, afastando-se da fé apostólica e católica com os pelagianos, não quer que os que nascem estejam sob o domínio do diabo, para que as crianças não sejam levadas a Cristo, arrancadas do poder das trevas e levadas para o Seu reino. E especialmente acusa a Igreja espalhada pelo mundo inteiro, onde todas as crianças durante o batismo recebem em todas as partes o rito da insuflação não por outra razão senão para lançar para fora delas o príncipe do mundo, sob o domínio necessariamente estão os vasos de ira desde que nascem de Adão e não renascem em Cristo; [renascidas em Cristo,] são transladadas para o Seu Reino, já que se tornam vasos de misericórdia pela graça" (Contra Iulianum Pelagianum II, XVIII, 33).

Imerso no pensamento da época, Santo Agostinho tem dificuldades para vislumbrar qual será o estado das crianças nascidas sem o batismo e, inclusive, declara-se ignorante da natureza da pena que poderá ocasionar-lhes este estado:
"...Não digo que as crianças que morrem sem o batismo de Cristo serão castigadas com uma pena tão grande que mais lhes valeria não terem nascido, porque o Senhor não pronunciou estas palavras fazendo referência a qualquer pecador, mas dos criminosos e ímpios. Se a sentença que pronunciou sobre Sodoma não deve ser entendido somente em relação aos sodomitas, já que no dia do juízo alguns serão castigados mais gravemente que outros, quem pode duvidar que as crianças não batizadas, que morrem sem pecado pessoal algum, apenas com o [pecado] original, sofrerão a pena mais leve de todas? Ignoro qual será a natureza desta pena... porém, vós, que os considerais livres de toda culpa, não queirais pensar na classe de penas a que condenais [essas crianças], privando da vida e do reino de Deus a tantas imagens suas, separando-as de seus piedosos pais, a quem tão claramente exortais a procriar. É injusto que as crianças sofram castigo se não tiverem pecado; porém, se seu castigo é justo, é necessário reconhecer nelas a existência do pecado orginal" (Contra Iulianum Pelagianum III, XI, 44).

Em sua carta a São Jerônimo, escreveu: 
"Sou vítima de grandes angústias, acreditai, quando se toca neste ponto sobre o castigo das crianças e não sei absolutamente o que responder" (Ep. 166,6,16: PL 33,727). 

A Igreja hoje reconhece a necessidade do batismo para a salvação, mas também reconhece que é possível haver salvação para as crianças não batizadas, por "caminhos desconhecidos por ela".

Antes de comparar a posição de Santo Agostinho com o mundo protestante, temos que esclarecer que entre estes há duas posturas dissonantes. Os anabatistas (maioria atualmente), que negam a existência do pecado original e a necessidade do batismo das crianças e os de tendência luterana e calvinista, que confessam crer na doutrina do pecado original. Em suas confissões de fé - como a de Augsburgo de 1530 - se lêem condenações à posição anabatista e se professa a necessidade de batizar as crianças para que estas se salvem; a confissão de Westminster reconhece a necessidade do batismo e considera pecado grave o descuido e menosprezo do sacramento (no entanto, admite que é possível alguém obter a salvação sem que tenha sido batizado). Com efeito, pode-se dizer que a posição de Santo Agostinho é radicalmente oposta à majoritária tendência anabatista e eu me atreveria a afirmar que ele a combateria com o mesmo fervor e eficácia com que combateu ao Pelagianismo.

É curioso que tenham sido as denominações protestantes que ressuscitaram a heresia da negação do pecado original, pois isto implica na depreciação da necessidade da obra redentora de Cristo, explicada claramente pelo apóstolo São Paulo no capítulo 5 da epístola aos Romanos.

Conclusão

Santo Agostinho era protestante? Se sim, deve-se contestar as seguintes perguntas:

1. Os protestantes creem que os bispos de Roma são os sucessores do apóstolo Pedro e a Sé Apostólica é a Igreja de Roma? Reconhecem as determinações do Papa em matéria de fé e se submetem à sua censura?

2. Os protestantes creem que não é herege quem erra na fé, mas aquele que resiste à doutrina católica que lhe é manifestada?

3. Os protestantes opinam que não creriam no Evangelho se não lhes movesse a autoridade da Igreja Católica?

4. Os protestantes creem que é a Igreja Católica quem transmite a Tradição e a interpreta, resolve as controvérsias e prescreve a regra de fé?

5. Os protestantes creem que deve-se permanecer seguro na Igreja qualquer que seja a dificuldade que se lhes apresente?

6. Os protestantes creem que Deus assentou a doutrina da verdade na cátedra da unidade?

7. Os protestantes creem que Maria permaneceu Virgem por toda a vida?

8. Os protestantes creem que Deus nasceu de uma mulher?

9. Os protestantes creem que, no que tange a Maria, é intolerável que se fale de pecado?

10. Os protestantes creem que o batismo é necessário para a salvação, removendo o pecado original e os demais pecados?

11. Os protestantes creem que é imoral negar o batismo às criança, já que se lhes impede de revestirem-se de Cristo e nascer novamente?

Se a todas essas respostas você puder contestar então sim, Santo Agostinho era protestante (e se fosse assim, oxalá tivéssemos mais protestantes desse estilo!).

Bibliografia
1. BAC 422. Patrologia III, Instituto Patriótico Augustinianum
2. BAC 457. Obras Completas de San Agustín, XXXV
3. Catecismo Oficial da Igreja Católica
4. Diccionario de patrística, Cesar Vidal Manzanares
5. Mariología, José C. R. García Paredes
6. Early Church Fathers [CCEL].


Fonte: Veritatis

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